MaaS e a transformação digital do Transporte Público

24/09/2019

O MaaS – Mobilidade como serviço é herói ou vilão em relação a transformação digital do transporte público?

A resposta não é simples pois depende da capacidade de alinhar as metas de resultados das empresas participantes com o interesse público, neste caso representado pelas autoridades e operadores locais de transporte público. Sendo assim é provável que essas partes tenham objetivos conflitantes. Portanto, há um alto risco de conflitos.

O MaaS tem como um dos seus principais objetivos o de motivar as pessoas a abandonar seus carros e, em vez disso, mudar para serviços de mobilidade mais eficientes. Com maior eficiência nos deslocamentos, o MaaS então reduzirá custos, congestionamentos, poluição do ar, ruído, acidentes, melhorando a mobilidade e liberando novos espaços urbanos atualmente ocupados por estacionamentos. O que na primeira avaliação poderia gerar um efeito muito positivo para o transporte público.

Porém, para as empresas privadas participantes, os benefícios acima mencionados são de natureza secundária, pois como todas as empresas, elas precisam lucrar para sobreviver no mercado – ou ainda precisam atingir metas agressivas de crescimento e participação de mercado, quando são alavancadas por capital de risco.

Já os operadores de transporte público (OTP) estão acostumados a uma situação monopolista e agora tem seus mercados sendo reduzidos pelos novos participantes. Apesar deles em geral não concordar com a atual evolução da mobilidade – dada a sua tomada de decisão extremamente lenta e orientada para a política pública, eles não têm nenhuma chance de competir com empresas ágeis, de capital de risco e de alto perfil.

Sendo assim a cooperação mútua e benéfica em uma parceria público-privada (PPP) será o salva-vidas dos OTPs e pode tornar o MaaS um sucesso para a sociedade e as empresas participantes.  Isso exige que as OTPs e autoridades de transporte público ajam em favor de:

  • Ter os desejos das pessoas de se deslocar como ponto central das decisões
  • Buscar otimizar os serviços de mobilidade para não gerar entre eles uma concorrência que poderá provocar ineficiência ao sistema

Isso exigirá uma mudança de mentalidade e algumas “mudanças organizacionais” para as autoridades públicas e operadores de transporte público.  A boa notícia é que existem várias cidades no mundo que já fizeram experiências boas e ruins para aprender. Portanto, não há necessidade de perder tempo e cometer os mesmos erros novamente.

Sabe-se também que os serviços de transporte de passageiros por aplicativos, como Uber ou 99, já estão solidificados na nossa sociedade e que atraem mais clientes de transporte público, portanto, claramente “canibalizam” o transporte público. Em algumas cidades, isso pode levar a uma menor utilização de ônibus, trens e metrôs e a um aumento significativo do tráfego, congestionamentos e emissões relacionados, conforme descrito, por exemplo, no relatório de Bruce Schaller sobre “ Lyft, Uber e o futuro das cidades americanas.”.

O mini-ônibus CityBus 2.0  da HP Transportes (Goiânia-GO) poderia ser um modelo com uma abordagem que, por design, não canibaliza o transporte público: ele age apenas como um “serviço complementar”, ou seja, tem como objetivo pegar passageiros dos serviços de transporte por aplicativo em viagens de curta distância.

Outra visão interessante sobre a canibalização corporativa vem do Uber e do seu serviço eBike, recentemente adquirido, JUMP . De acordo com um gerente da Uber, a empresa perde dinheiro em viagens de curta distância até cinco quilômetros. Esta distância é ideal para passeios de scooter elétrico ou de bicicleta. Ao adicionar JUMP-Bikes ao aplicativo de passageiros, o Uber reduz seus passeios de curta distância não rentáveis ​​e cria negócios lucrativos para o JUMP de uma só vez. Gerando assim mais valor para seus clientes e aumentando a sua atratividade frente ao transporte público. Esta ação demonstra a intenção do Uber em criar uma ecossistema MaaS exclusivo dele.

Portanto, é de extrema urgência que os OTPs promovam a transformação digital do transporte público, ou seja, que desenvolvam um processo no qual as empresas operadoras utilizem da tecnologia para agregar valor aos usuários, melhorar o desempenho, aumentar o alcance e garantir resultados melhores. Vale ressaltar que isto exige uma mudança estrutural nas organizações dando um papel essencial para a tecnologia e não somente a aquisição de software e hardware. Ou os operadores de transporte público se transformam ou terão o mesmo fim da Kodak e Blockbuster

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